Interessante como a proximidade de ano eleitoral faz brotar seres mitológicos no Brasil. O mais recente titã a despertar é o tucano-fênix.

Ave rara. há quatro anos o tucano-fênix foi transformado em pó; agora, findado os tempos de pó, a ave mitológica, típica do Brasil, inquieta-se no ninho e tenta ressurgir das cinzas para impor o brio de tempos passados.

De algum recanto paradisíaco das alterosas, o último príncipe da dinastia dos Neves faz o papel de Hermes, o Deus da eloquência. É esse paladino das Minas Gerais que conduz o tucano-fênix à sua mais recente e definitiva ressureição. Ele evoca a alma do tucano-fênix na esperança que ressurja.

Mas ao mesmo tempo que exulta a ressurreição tucana, ele pragueja sobre sua própria sorte e manda a todas as viúvas tucanescas espalharem a profecia do oráculo de Claudius: se o tucano-fênix não reviver em 2022, estará fadado à morte perpétua, vagando nos oceanos do esquecimento nacional.

Ah, como é interessante o panteão mitológico da política brasileira.

Existe algum relógio cósmico que conta as elipses terrestres em torno do sol e a cada quatro anos faz emergir das profundezas nacionais seres raramente vistos.

Na última vez em que ocorreu esse incidente cósmico, o Brasil acabou governado por uma mula-sem-cabeça. Trata-se de animal digno da curiosidade alheia: é teimoso e faz jus à sua natureza de asno; é destrutivo e distribui coices à revelia; contudo, pobre animal, é mito incapaz de pensar e está fadado a auto destruição.

Outro ser mitológico que costuma aparecer de quatro em quatro anos é a curupira seringueira. Defensora da floresta, ela parece sempre estar andando para trás.

A curupira seringueira vive escondida nas entranhas da Amazônia. Condenada ao silêncio, ela passa quatro anos calada, reclusa e do lar. Mas, quando a Terra completa sua quarta translação, algo acontece nos seringais acreanos. As árvores se movem, os pássaros entoam cantos, os animais abrem passagem e ela aparece, glamurosa, pronta para disputar mais uma eleição.

Há ainda outros, menos relevantes, mas não menos interessantes. Há o “cangaceiro hood”, que abre as porteiras de seu curral eleitoral sempre que aproximam-se as eleições. Armado com sua peixeira, montado em seu jerico, urge eloquentemente, prometendo roubar dos ricos para dar aos pobres. Passadas as eleições, porém, some em seu feudo, fugindo da caatinga de seus próprios atos.

É claro, não podemos esquecer, a sereia vermelha barbuda, que com seu canto irresistível seduz a gregos e troianos. A cada quatro anos a sereia barbuda emerge, mobilizando marujos que ousam navegar em águas revoltosas. Destruidora de heróis, a sereia de São Bernardo é arisca. Nem Ulisses, nem Moro, não surgiu ainda homem capaz de captura-la ou de resistir ao seu encanto.

Mas existem também aqueles seres mitológicos mais raros, que aparecem e somem, vem do nada e para o nada voltam. Às vezes sem deixar rastros.

É o caso do gaúcho de Nármia, que oportunamente espia por entre frestas e, de repente, salta de dentro de armários obscuros, captura presas ingênuas e volta para as sombras da rainha de gelo, sorrateiramente.

Ou o caso do Peter Pan da paulista. Serelepe, ele voa com piruetas exibicionistas em suas malhas apertadas, mas não cresce nas pesquisas. Quer sempre ser pequeno e acaba voltando para Terra do Nunca, onde brinca com fadas, patos de borracha e dança com os garotos perdidos da Fiesp.

Tem ainda o caso da Bruxa do Caldeirão. Com seu nariz assustador ela oferece sonhos aos pobres brasileirinhos puros de coração. Com sua fantástica casa de chocolates, ela atrai eleitores para depois devora-los. Mas a Bruxa do caldeirão é indecisa. Ela brinca com a ilusão de suas presas e acaba sempre voltando pro caldeirão.

Ah, os mitos! Os mitos são legais. Mas os mitos não são reais. Por trás de cada mito existe um reles mortal. é chegada a hora de parar de embarcar em mitos e reconhecer os humanos reais por trás de cada um deles.

Humanos. Com defeitos e qualidades reais. É hora de escolher imperfeições. É hora de escolher realidades possíveis. Um país que escolhe seu destino acreditando em mitos tem apenas dois caminhos a seguir: ou vira História ou vira literatura.